TUDO
PERDER POR CRISTO
Por Frei
Raniero Cantalamessa
Para permanecer fiéis ao método da lectio divina, tão recomendada
pelo recente Sínodo dos bispos, escutemos as palavras de São Paulo sobre as
quais refletiremos nesta meditação:
«Mas tudo isso, que para mim eram vantagens, considerei perda por Cristo. Na
verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com esse bem supremo: o
conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por ele tudo desprezei e tenho em
conta de esterco, a fim de ganhar Cristo e estar com ele. Não com minha justiça,
que vem da lei, mas com a justiça que se obtém pela fé em Cristo, a justiça que
vem de Deus pela fé. Anseio pelo conhecimento de Cristo e do poder da sua
Ressurreição, pela participação em seus sofrimentos, tornando-me semelhante a
ele na morte, com a esperança de conseguir a ressurreição dentre os mortos. Não
pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei à perfeição. Não. Mas
eu me empenho em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus
Cristo.
1. «Anseio pelo conhecimento de Cristo»
Na semana passada, meditamos sobre a conversão de Paulo como uma metanóia, uma
mudança de mente, no modo de conceber a salvação. Paulo, contudo, não se
converteu a uma doutrina, ainda que fosse uma doutrina de justificação mediante
a fé; Ele se converteu a uma pessoa! Antes que uma mudança de pensamento, a sua
foi uma mudança de coração, o encontro com uma pessoa viva. Usa-se com
freqüência a expressão «flechada» para denominar um amor à primeira vista que
elimina todo obstáculo; em nenhum caso esta metáfora é tão apropriada como em
São Paulo.
Vejamos como esta mudança de coração aparece no texto que lemos. Fala do «bem
supremo» (hyperecho) de conhecer a Cristo e se sabe que, neste caso, como em
toda a Bíblia, conhecer não indica uma descoberta só intelectual, um ter uma
idéia de algo, mas um laço vital íntimo, um entrar em relação com o objeto
conhecido. O mesmo vale no caso da expressão «anseio pelo conhecimento de Cristo
e do poder da sua Ressurreição, pela participação em seus sofrimentos».
«Conhecer pela participação em seus sofrimentos» não significa, evidentemente,
ter uma idéia dos mesmos, mas experimentá-los.
Por acaso li esta passagem em um momento especial da minha vida, no qual me
encontrava também eu diante de uma escolha. Eu tinha me ocupado de Cristologia,
havia escrito e lido muito sobre este tema, mas quando li «pelo conhecimento de
Cristo», compreendi imediatamente que aquele simples pronome pessoal que aparece
no original, «ele», (auton) continha mais verdades sobre Jesus que todos os
livros escritos ou lidos sobre Ele. Compreendi que, para o apóstolo, Cristo não
era um conjunto de doutrinas, de heresias, de dogmas: era uma pessoa viva,
presente e realíssima que se podia designar com um simples pronome, como se faz
quando se fala de alguém que está presente, assinalando-o com o dedo.
O
efeito do enamoramento é duplo. Por um lado, põe em obra uma drástica redução do
interesse em si, uma concentração sobre a pessoa amada que faz passar a um
segundo plano todo o resto do mundo; por outro, nos faz capazes de sofrer
qualquer coisa pela pessoa amada, aceitar a perda de tudo. Vemos ambos os
efeitos realizados à perfeição no momento no qual o Apóstolo descobre Cristo:
por ele, diz, «tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar
Cristo».
Aceitou a perda de seus privilégios de «judeu entre os judeus», a estima e a
amizade de seus mestres e compatriotas, o ódio e a lástima de quem não
compreendia como um homem como ele teria podido deixar-se seduzir por uma seita
de fanáticos. A 2ª Carta aos Coríntios inclui a enumeração impressionante de
tudo o que ele sofreu por Cristo (cf. 2 Cor 11, 24-28).
O
Apóstolo encontrou por si mesmo a única palavra que encerra tudo: «conquistado
por Jesus Cristo». Poder-se-ia traduzir também «aferrado», «fascinado» ou, com
uma expressão de Jeremias, «seduzido» por Cristo. Os enamorados não se cortam;
fizeram-no tantos místicos no cúmulo de seu ardor. Não tenho dificuldade,
portanto, para imaginar um Paulo que, em um ímpeto de alegria, após sua
conversão, grita ele sozinho aos árabes ou, às margens do mar, o que mais tarde
escreveria aos filipenses: «Fui conquistado por Cristo! Fui conquistado por
Cristo!».
Conhecemos bem as frases lapidárias e cheias de significado do Apóstolo que cada
um gostaria de poder repetir na própria vida: «Para mim viver é Cristo» (Flp 1,
21), e «Não sou eu quem vive, mas Cristo quem vive em mim» (Gál 2, 20).
2. «Em Cristo»
Pois bem, sendo fiel ao anunciado no programa destas pregações, eu gostaria de
destacar o que, sobre este ponto, o pensamento de Paulo pode significar,
primeiro para a teologia de hoje e depois para a vida espiritual dos crentes.
A
experiência pessoal levou Paulo a uma visão global da vida cristã que ele
denomina «Em Cristo» (en Christo). A fórmula se repete 83 vezes no corpus
paulino, sem contar a expressão afim «com Cristo» (syn Christo) e as expressões
pronominais equivalentes «nele» ou «naquele que».
É
quase impossível traduzir com palavras o rico conteúdo destas frases. A
proposição «em» tem um significado algumas vezes local, outras temporal (no
momento no qual Cristo morre e ressuscita), outras instrumental (por meio de
Cristo). Descreve a atmosfera espiritual na qual o cristão vive e atua. Paulo
aplica a Cristo o que, no discurso ao Areópago de Atenas, diz de Deus, citando
um autor pagão: «N’Ele vivemos, nos movemos e existimos» (Atos 17, 28). Mais
tarde, o evangelista João expressaria a mesma visão com a imagem do «permanecer
em Cristo» (João 15, 4-7).
A
estas expressões recorrem aqueles que falam de mística paulina. Frases como
«Deus reconciliou em si o mundo em Cristo» (2 Cor 5, 19) são totalizadoras, não
deixam fora de Cristo nada nem ninguém. Dizer que os crentes estão «chamados a
ser santos» (Romanos 1, 7) equivale para o Apóstolo a dizer que estão «chamados
por Deus à comunhão com seu Filho Jesus Cristo» (1 Cor 1, 9).
Justamente, também no mundo protestante, hoje se começa a considerar a visão
sintetizada, na expressão «em Cristo» ou «no Espírito», como mais central e
representativa do pensamento de Paulo que a própria doutrina da justificação
mediante a fé.
O
ano paulino poderia revelar-se como a ocasião providencial para fechar todo um
período de discussões e confrontos ligados mais ao passado que ao presente, e
abrir um novo capítulo no uso do pensamento do Apóstolo. Voltar a usar suas
cartas, e em primeiro lugar a Carta aos Romanos, para o fim para o qual foram
escritas, que não era, certamente, o de proporcionar às gerações futuras uma
palestra na qual exercitar sua perspicácia teológica, mas o de edificar a fé da
comunidade, formada em sua maioria por pessoas simples e iletradas. «Anseio
ver-vos – diz aos romanos –, a fim de comunicar-vos algum dom espiritual que vos
fortaleça, ou melhor, para sentir entre vós o mútuo consolo da fé comum: a vossa
e a minha.» (Rom 1, 11-12)
3. Muito além da Reforma e da Contra-reforma
É
tempo, creio, de ir muito além da Reforma e muito além da Contra-reforma. O que
está em jogo, no princípio do terceiro milênio, já não é o mesmo do início do
segundo milênio, quando se produziu a separação entre o Oriente e o Ocidente, e
nem sequer da metade do milênio, quando se produziu, dentro da cristandade
ocidental, a separação entre católicos e protestantes.
Por dar um só exemplo, o problema já não é o de Lutero de como libertar o homem
do sentimento de culpa que o oprime, mas de como devolver ao homem o verdadeiro
sentido do pecado que perdeu totalmente. Que sentido tem continuar discutindo
sobre «como se dá a justificação do ímpio», quando o homem está convencido de
que não precisa de nenhuma justificação e declara com orgulho: «Eu mesmo hoje me
acuso e só eu posso absolver-me, eu o homem?» [1].
Eu creio que todas as discussões de séculos entre católicos e protestantes, em
torno da fé e das obras, acabaram por fazer-nos perder de vista o principal
ponto da mensagem paulina, desviando com freqüência a atenção de Cristo às
doutrinas sobre Cristo, na prática, de Cristo aos homens. O que o Apóstolo
afirma em Romanos 3 não é que estamos justificados pela fé, mas estamos
justificados pela fé em Cristo; não é tanto que estamos justificados pela graça,
mas que estamos justificados pela graça de Cristo. O acento é posto em Cristo,
mais do que na fé ou na graça.
Após ter apresentado nos capítulos precedentes da Carta à humanidade em seu
universal estado de pecado e perdição, o Apóstolo tem o incrível valor de
proclamar que esta situação agora mudou radicalmente «em virtude da redenção
realizada por Cristo», «pela obediência de um só homem» (Rom 3, 24; 5, 19). A
afirmação de que esta salvação se recebe por fé, e não pelas obras, é
importantíssima, mas vem em segundo lugar, não em primeiro. Cometeu-se o erro de
reduzir a um problema de escolas, dentro do cristianismo, o que era para o
Apóstolo uma afirmação de alcance mais amplo, cósmico, universal.
Esta mensagem do Apóstolo sobre a centralidade de Cristo é de grande atualidade.
Muitos fatores, com efeito, levam a colocar entre parênteses hoje sua pessoa.
Cristo não se questiona hoje em nenhum dos três diálogos mais vivazes em curso
entre a Igreja e o mundo. Nem no diálogo entre fé e filosofia, porque a
filosofia se ocupa de conceitos metafísicos, não de realidades históricas com a
pessoa de Jesus de Nazaré; nem no diálogo com a ciência, com a qual se pode
unicamente discutir sobre a existência ou não de um Deus criador, de um projeto
por trás da evolução; nem, enfim, no diálogo inter-religioso, que se ocupa
daquilo que as religiões podem fazer juntas, em nome de Deus, pelo bem da
humanidade.
Poucos, inclusive entre os crentes, quando são perguntados sobre em que crêem,
responderiam: creio que Cristo morreu por meus pecados e ressuscitou para minha
justificação. A maioria responderia: creio na existência de Deus, em uma vida
depois da morte. E, contudo, para Paulo, como para todo o Novo Testamento, a fé
que salva é só aquela na morte e ressurreição de Cristo: «Se confessas com tua
boca que Jesus é Senhor e crês em teu coração que Deus o ressuscitou dentre os
mortos, serás salvo» (Rom 10, 9).
No mês passado, aconteceu aqui no Vaticano um simpósio promovido pela Academia
Pontifícia para as Ciências, com o título «Pontos de vista científicos em torno
da evolução do universo da vida», do qual participaram os máximos cientistas de
todo o mundo. Eu quis entrevistar, para o programa que dirijo aos sábados à
tarde na TV sobre o evangelho, um dos participantes, o professor Francis
Collins, diretor do grupo de pesquisa que levou em 2000 a decifrar completamente
o genoma humano. Sabendo que era crente, eu lhe fiz, entre outras, a pergunta:
«Você creu primeiro em Deus ou em Jesus Cristo?».
Ele respondeu: «Até quando tinha mais ou menos 25 anos, eu era ateu, não tinha
uma preparação religiosa, era um cientista que reduzia quase tudo a equações e
leis da Física. Mas, como médico, comecei a ver as pessoas que deveriam
enfrentar o problema da vida e da morte, e isso me fez pensar que meu ateísmo
não era uma idéia arraigada. Comecei a ler textos sobre as argumentações
racionais da fé, que não conhecia. Primeiro, cheguei à convicção de que o
ateísmo era uma alternativa menos aceitável. Pouco a pouco, cheguei à conclusão
de que deve existir um Deus que criou tudo isso, mas não sabia como era esse
Deus».
É
instrutivo ler, em seu livro «A linguagem de Deus», como ele superou este
impasse: «Para mim, era difícil estender a ponte para este Deus. Quanto mais
aprendia a conhecê-lo, mais sua pureza e santidade me pareciam inacessíveis.
Nesta amarga coincidência, chegou a pessoa de Jesus Cristo. Havia passado mais
de um ano desde que decidi crer em alguma espécie de Deus, e agora havia chegado
a prestação de contas. Em uma linda manhã de outono, enquanto pela primeira vez,
passeando pelas montanhas, eu me dirigia ao oeste do Mississipi, a majestade e a
beleza da criação venceram minha resistência. Compreendi que a busca havia
chegado a seu fim. Na manhã seguinte, ao sair o sol, eu me ajoelhei sobre a erva
úmida e me rendi a Jesus Cristo» [2].
Pensa-se na palavra de Cristo: «Ninguém vai ao Pai senão por mim». Só n’Ele Deus
se faz acessível e crível. Graças a esta fé reencontrada, o momento da
descoberta do genoma humano foi, ao mesmo tempo, diz ele, uma experiência de
exaltação científica e de adoração religiosa.
A
conversão deste cientista demonstra que o evento de Damasco se renova na
história; Cristo é o mesmo ontem e hoje. Não é fácil para um cientista,
especialmente para um biólogo, declarar-se crente publicamente hoje, como não o
foi para Saulo: corre-se o risco de ser imediatamente «expulso da sinagoga». E,
de fato, é o que aconteceu ao professor Collins, que por sua profissão de fé
teve de sofrer os dardos de muitos laicistas.
4. Da presença de Deus à presença de Cristo
Resta-me dizer algo sobre outro ponto: o que o exemplo de Paulo tem a dizer para
a vida espiritual dos crentes. Um dos temas mais tratados na espiritualidade
católica é o do pensamento da presença de Deus [3]. São incontáveis os tratados
sobre este tema desde o século XVI até hoje. Em um deles se lê: «O bom cristão
deve habituar-se a este santo exercício em todo tempo e em todo lugar. Ao
despertar, dirija em seguida o olhar da alma a Deus, fale e converse com Ele
como seu amado Pai. Quando caminhe pelas ruas, tenha os olhos do corpo baixos e
modestos, elevando os da alma a Deus» [4].
Distingue-se «o pensamento da presença de Deus» do «sentimento de sua presença:
o primeiro depende de nós, o segundo é, ao contrário, dom da graça que depende
de nós. (Para São Gregório, «o sentimento da presença» de Deus, a aisthesis
parousia, é quase sinônimo de experiência mística).
É
uma visão rigidamente teocêntrica que, em alguns autores, chega inclusive ao
conselho de «deixar de lado a santa humanidade de Cristo». Santa Teresa de Jesus
reagirá energicamente contra esta idéia que reaparece periodicamente no
cristianismo, desde Orígenes em diante, tanto oriental como ocidental. Mas a
espiritualidade da presença de Deus, também depois da Santa, continuará sendo
rigidamente teocêntrica, com todos os problemas que derivam dela, postos de
relevo pelos mesmos autores que tratam deles [5].
Neste sentido, o pensamento de São Paulo pode nos ajudar a superar a dificuldade
que levou ao declive da espiritualidade da presença de Deus. Ele fala sempre de
uma presença de Deus «em Cristo». Uma presença irreversível e insuperável. Não
há um estágio da vida espiritual no qual se possa prescindir de Cristo, ou ir
«além de Cristo». A vida cristã é uma «vida oculta com Cristo em Deus» (Colossenses
3, 3). Este cristocentrismo paulino não atenua o horizonte trinitário da fé, mas
o exalta, porque para Paulo todo o movimento parte do Pai e volta ao Pai, por
meio de Cristo, no Espírito Santo. A expressão «em Cristo» é intercambiável, em
seus escritos, com a expressão «no Espírito».
A
necessidade de superar a humanidade de Cristo, para aceder diretamente ao Logos
eterno e à divindade, nascia de uma escassa consideração da ressurreição de
Cristo. Esta era vista em seu significado apologético, como prova da divindade
de Jesus, e não suficientemente em seu significado mistérico, como início de sua
vida «segundo o Espírito», graças à qual a humanidade de Cristo aparece já em
sua condição espiritual e, portanto, onipresente e atual.
O
que se deriva disso no âmbito prático? Que podemos fazer tudo «em Cristo» e «com
Cristo», seja que comamos, durmamos, ou que façamos qualquer outra coisa, diz o
Apóstolo (1 Coríntios 10, 31). O Ressuscitado não está presente só porque
pensamos n’Ele, mas está realmente junto de nós; não somos nós que devemos, com
o pensamento e a imaginação, transladar-nos à sua vida terrena e representar os
episódios de sua vida (como se trata de fazer com a meditação dos «mistérios da
vida de Cristo»): é Ele, o Ressuscitado, o que vem a nós. Não somos nós que, com
a imaginação, temos de fazer-nos contemporâneos de Cristo: é Cristo o que se faz
realmente nosso contemporâneo. «Eu estou convosco todos os dias até o fim do
mundo» (a propósito, por que não fazer imediatamente um ato de fé? Ele está
aqui, nesta capela, mais presente que qualquer um de nós; busca o olhar de nosso
coração e se alegra quando o encontra).
Existe um texto reflete maravilhosamente esta visão da vida cristã, na oração
atribuída a São Patrício: «Cristo comigo, Cristo na minha frente, Cristo atrás
de mim, Cristo em mim! Cristo debaixo de mim, Cristo sobre mim, Cristo à minha
direita, Cristo à minha esquerda»! [6].
Que novo e mais alto significado adquirem as palavras de São Luis María Grinon
de Montfort, se aplicarmos ao «Espírito de Cristo» o que ele diz do «espírito de
Maria»:
«Devemos abandonar-nos ao Espírito de Cristo para ser movidos e guiados segundo
seu querer. Devemos colocar-nos e permanecer entre suas mãos como um instrumento
nas mãos de um oleiro, como um alaúde entre as mãos de um hábil instrumentista.
Devemos perder-nos e abandonar-nos nele como a pedra que se lança ao mar. É
possível fazer tudo isso simplesmente e em um instante, com um só olhar interior
ou um leve movimento da vontade, ou inclusive com alguma breve palavra.» [7]
5. Esquecimento do passado
Concluamos voltando ao texto de Filipenses 3. São Paulo acaba suas «confissões»
com uma declaração:
«Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do
passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo, rumo ao prêmio
celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo.» (Flp 3, 13-14)
«Prescindindo do passado.» Que passado? O de fariseu, do qual falou antes? Não,
o passado de apóstolo na Igreja! Agora, o lucro a considerar perda é outro: é
justo o ter já de uma vez considerado tudo perda por Cristo. Era natural pensar:
«Que valor tem Paulo: abandonar uma carreira de rabino tão bem iniciada por uma
obscura seita de galileus! E que cartas escreveu! Quantas viagens empreendeu,
quantas igrejas fundou!».
O
Apóstolo intui o perigo mortal de introduzir entre si e Cristo uma «justiça
própria», derivada das obras – esta vez, as obras realizadas por causa de Cristo
–, e reage energicamente. «Não considero – diz – ter chegado à perfeição.» São
Francisco de Assis, no final de sua vida, cortava pela raiz toda tentação de
auto-complacência, dizendo: «Comecemos, irmãos, a servir ao Senhor, porque até
agora fizemos pouco ou nada» [8].
Esta é a conversão mais necessária para quem já seguiu Cristo e viveu a seu
serviço na Igreja. Uma conversão sumamente especial, que não consiste em
abandonar o mal, mas, em certo sentido, em abandonar o bem! Ou seja, em tomar
distância de tudo o que se fez, repetindo para si mesmos, segundo a sugestão de
Cristo: «Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer» (Lucas 17, 10).
Este esvaziar as mãos e os bolsos de toda pretensão, em espírito de pobreza e
humildade, é o melhor modo para preparar-nos para o Natal. Recorda-nos um
simpático conto natalino que me compraz citar de novo. Ele narra que, entre os
pastores que correram na noite de Natal para adorar o Menino, havia um tão
pobrezinho que não tinha nada para oferecer e se envergonhava muito. Ao chegarem
à gruta, todos competiam ao oferecer seus dons. Maria não sabia como fazer para
receber todos, tendo o Menino nos braços. Então, vendo ao pastorinho com as mãos
livres, pegou Jesus e o confiou a ele. Ter as mãos vazias foi sua fortuna e, em
outro nível, será também a nossa.
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[1] J.-P. Sartre, Il diavolo e il buon dio, X,4 (Parigi, Gallimard 1951, p.
267.).
[2] F. Collins, The Language of God. A Scientist Presents Evidence for Belief,
pp. 219-255.
[3] Cf. M. Dupuis, Présence de Dieu, in D Spir. 12, coll. 2107-2136.
[4] F. Arias (+1605), cit. da Dupuis, col. 2111.
[5] Dupuis, cit., col 2121: «Se l'onnipresenza di Dio non si distingue dalla
sua essenza, l'esercizio della presenza di Dio non aggiunge al tradizionale tema
del ricordo di Dio, se non un sforzo imaginativo».
[6] «Christ with me, Christ before me, Christ behind me, Christ below me, Christ
above me, Christ at my right, Christ at my left.»
[7] Cf. S. L. Grignon de Montfort, Trattato della vera devozione a Maria, nr.
257.259 (in Oeuvres complètes, Parigi 1966, pp. 660.661).
[8] Celano,Vita prima, 103 (Fonti Francescane, n. 500).
(traduzido por Zenit)