QUARENTA DIAS DE RETIRO
Quaresma e Campanha da Fraternidade 

Estamos em fevereiro. O ano ainda está começando. Aulas ja à vista. O carnaval agita as ruas, praças e salões, até o dia 16 deste mês, a chamada terça-feira “gorda”. Já no dia seguinte, Quarta-Feira de CINZAS, - dia de jejum e de abstinência -, começa a Quaresma, 40 dias de recolhimento, meditação e oração, com a realização da Campanha da Fraternidade.

Estas práticas são muito difíceis para o ser humano moderno: pragmático, agitado, individualista e resistente a tudo o que exige esforço. Além disso, a propaganda e os meios de comunicação oferecem informações e propostas que ocupam as mentes, suscitam interesses e necessidades, reais ou  artificiais.

Entretanto, se prestarmos atenção a tudo o que envolve o ser humano (de ontem, de hoje e de sempre), notamos como é fundamental a dimensão “interior” e “espiritual”.  A religião (ou religiões) é fenômeno universal, presente em todo o mundo. Mais ainda, toda a pessoa necessita de um cuidado interior à sua personalidade: o cultivo de sua interioridade. E o relacionamento com Deus é algo imprescindível.

Esta introdução nos ajuda a aprofundar o sentido da Quaresma, como um retiro da Igreja para entender o mistério da presença de Deus em toda a História da Salvação e, sobretudo, na vida e missão de Jesus Cristo, o Filho de Deus e o Filho do Homem. Ele entrou por dentro da realidade humana e nos conduziu a penetrar o Mistério do Amor Divino. Somos amados por Deus!

Somos chamados a penetrar este Mistério. De modo especial, a Igreja, seguidora de Jesus, neste tempo da Quaresma dedica estes 40 dias de “retiro” para aprofundar e viver os grandes mistérios cristológicos de sua Paixão, Morte e Ressurreição. “A memória desses eventos não pode ser improvisada; por isso a liturgia quaresmal , muito rica e significativa, objetiva a renovação interior do povo de Deus, para que ele possa colher e saborear os frutos da Páscoa. Mas isso só ocorrerá se, no cronograma da Quaresma, houver espaço para a conversão, para a penitência, para a oração e para a vivência da caridade” (D. Geraldo Majella Agnelo, in Liturgia Diária, fev. de 2010).

Uma ilustração deste “retiro” nós a temos no exemplo de Jesus que, ao iniciar sua missão, após seu batismo, “pleno do Espírito Santo voltou do Jordão; era conduzido pelo Espírito através do deserto durante quarenta dias, e tentado pelo diabo” (Lc 4,1-12). E a tentação foi tríplice: “Se és  Filho de Deus” a) - transforma esta pedra em pão; b) - toma posse de todos os reinos da terra, e c) - atira-te do pináculo do Templo. Mas Jesus não buscou benefício próprio e sua resposta foi decidida: “Não tentarás ao Senhor, teu Deus”! Este é  o caminho para Deus: conversão, penitência, oração e prática da caridade.

A prática da caridade nos é apresentada na CAMPANHA DA FRATERNIDADE, que, neste ano, tem como tema: “Economia e Vida”, e como  lema: “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”. 

Seu objetivo geral é: “Colaborar na promoção de uma economia a serviço da vida, fundamentada no ideal da cultura e da paz, a partir do esforço conjunto das Igrejas Cristãs e de pessoas de boa vontade, para que todos contribuam na construção do bem comum em vista de uma sociedade sem exclusão” (Texto base, introd.).

A economia hoje é levada a obedecer à lógica do mercado: coloca a seu serviço a vida e o trabalho (muitas vezes escravo) das pessoas; um desenvolvimento desequilibrado; os recursos do meio-ambiente, como a água e o clima que prejudicam o Planeta.

Contra a tentação do lucro, é necessário considerar a dignidade da vida humana, sabendo que a vida de cada um está ligada à vida de todos. O planeta Terra é a casa de todos. É preciso urgentemente olhar para o desafio da pobreza.  O número de pobres está aumentado cada vez mais.

No “retiro” eclesial da Quaresma e da CF é necessário se perguntar como viver hoje a mensagem da Boa Nova de Jesus. As comunidades cristãs devem deixar-se interpelar pelas palavras de Jesus: “Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde as traças e os vermes arruínam tudo, onde os ladrões arrombam as paredes para roubar. Mas acumulai para vós tesouros no céu” (Mt 6, 19-20a). Toda a vida de Jesus foi um testemunho de simplicidade no uso dos bens matérias, de solidariedade com os pobres, de distribuição gratuita dos dons de Deus.

Entremos com força e coragem neste “retiro”! Busquemos viver o amor e a solidariedade. Descubramos a alegria de amar a Jesus Cristo em nossos irmãos e irmãs mais necessitados e pobres!

 

Dom Jacyr Francisco Braido, CS
Bispo diocesano de Santos

 

 

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